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Duras / Nevers

Jamais je n’aurais cru qu'un lieu pouvait avoir cette puissance, cette force-là.

Eu não acreditava que um lugar pudesse ter essa potência, essa força. 


Pesquisando a relação entre os lugares literários e a visualidade durante o doutorado, me dispus a habitar algumas cidades na França para aprofundar meu entendimento dos lugares escritos por Marguerite Duras.  

Me debrucei sobre o livro que serviu de roteiro ao filme "Hiroshima meu amor", uma de suas obras mais célebres. Nela contava a história de um homem e uma mulher que se conhecem e se envolvem durante a rodagem de um filme sobre a guerra em Hiroshima: ela francesa, ele japonês. Na história, a cidade de Nevers, que a personagem feminina rememora durante o filme todo e permeia a relação entre os dois, surge como mais do que como mero pano de fundo para o enredo. 

Sempre me senti muito confortável pelo fato da literatura de Duras não pré-definir um lugar do feminino, sem se preocupar em nomeá-lo. Ao mesmo tempo, intuía e me identificava fortemente com esse lugar desde onde ela escreve, pungente como um soco bem dado. Não por acaso ela também não nomeia as personagens de Hiroshima, simplesmente as identifica pelo gênero, até o momento final, quando elas mesmas decidem se rebatizar. 

Nevers, Trouville, Neuf-le-Chateau, Paris. Essa definição de um espaço, de seu espaço, me era cara por si só na procura pela imagem dos lugares de Duras, afinal eu circulava por eles carregando uma memória emprestada e alheia, de forma a fazê-los colidir com os espaços reais que encontrava a partir da minha experiência. Essa sobreposição (ou permeabilidade, talvez) produziria sensações, imagens, fotografias, vídeos, movimentos e ações como formas visíveis e palpáveis dessa experiência. 


O conjunto deste trabalho é parte do Doutorado em Poéticas Visuais "Entre o livro e o lugar", 2015, orientado por Carlos Fajardo na Escola de Comunicações e Artes, USP. Disponível em TEXTOS.

Todas as mulheres de meus livros habitaram esta casa, todas. São as mulheres que habitam os lugares, não os homens. 

Toutes les femmes de mes livres ont habité cette maison, toutes. Il n’y a que les femmes qui habitent les lieux, pas les hommes.  

Lit de Pierre (Cama de pedra), foto-instalaçao, 2014

Na falta de outra coisa, o salitre se come. Sal de pedra. Riva come as paredes. Ela as beija tão bem. Ela está dentro de um universo de paredes. A lembrança de um homem está dentro dessas paredes. Integrada à pedra, ao ar, à terra.

Cage Dorée (Gaiola dourada), fotografia de intervenção urbana, 2014

    A cave (ou porão, em tradução pouco precisa tanto do termo quanto do espaço) poderia ser qualquer uma. Então era necessário dourar a maior quantidade possível de janelas de cave da cidade.

    Cave Dorée, fotografia de intervenção, Nevers, 2014.

    Tal ação poderia trazer consequências inesperadas. Como a luz que vemos acima, oriunda de uma janela que teve suas barras de ferro folheadas a ouro.

    Uma Nevers Imaginária

    Em Nevers o amor é vigiado como em nenhum outro lugar.

    As pessoas solitárias esperam pela sua morte. Nenhuma outra aventura além dessa poderá desviar sua espera.

    Nas suas ruas tortuosas vive-se, então, a linha reta de espera da morte.


    L'amour y est surveillé comme nulle part ailleurs.

    Des gens seuls y atendent leur mort. Aucune autre aventura que celle-láne pourra faire dévier leur attente.

    Dans ces rues tortueuses se vit donc la ligne droite de lá ttente de la mort. 








    (Neste momento, escuta-se o ruído muito longe, mas se aproximando bem depressa, de um ofegar de fera e sua corrida precipitada, como também um longo barrido.) 

    Rhinoceros, vídeo, 7'02", video-foto-ficção, Nevers, 2015.

    Maison écrite/Casa escrita, foto de intervençao urbana, Nevers, 2014.

      Dorian Gray, díptico fotográfico, 2014. Em Nevers, um edificio completamente restaurado portava no seu balcao central a ruína de sua propria imagem.

      Concert pour voix et murs

      Concerto para voz e muro, 3'48",  2015.  Video-performance com a cantora Beatrice Angèle. Trouville.

      A cantora Edith Piaf se apresentou no Teatro do cassino de Trouville em 1962, O teatro está fechado há mais de 50 anos. Um muro foi erguido sobre o palco, fechando a boca de cena.

      Em 2014, outra cantora entoou defronte esse muro, à capela, a canção "Padam Padam". Não há coincidências.

      Jetée Promenade (Cais Caminhada), monumento efêmero realizado em praia de Trouville, no local onde antes existiu o cais principal da cidade. 2014.

        ROches Noires, 9:02,díptico de Vídeos, Trouville, 2015.

        Roches Noires maison

        vídeo (díptico), 09:02, 2015

        Roches Noires soleil

        vídeo (díptico), 09:02, 2015

        NEvers ? Date?

        A procura do nome.  

        Assim como há um lugar onde os nomes permanecem, pousados em estantes empoeiradas e sem objeto ou corpo, em outro há rostos que aguardam pacientemente para saber quem são. 

        Postados numa vitrine em seus melhores trajes, cada um porta um número diferente e quem quiser pode depositar na caixa do correio o nome da pessoa que tenha porventura identificado, protegido sob anonimato. Para devolver um nome não é necessário revelar o seu próprio.

        A data também é desconhecida.

        O lugar é estimado. Supostamente, Nevers.


        Se reconhecer alguem nesta foto, por favor nos envie essa informação. Não precisa se identificar.

        Artigo em "ESTADO da ARTE" - revista de Artes Visuais

        Eu não sei dizer - falta, silêncio e visualidade na Nevers de Marguerite Duras

        Dossier NARRATIVAS ARTÍSTICAS: RAMIFICAÇÕES, CONTAMINAÇÕES E APAGAMENTOS


        Palavras-chave

        Lugar literário, Nevers, Marguerite Duras, Imagem, Feminino

        Resumo

        Neste ensaio teórico-visual o entendimento do feminino - na sua percepção como falta e silêncio - a partir da literatura de Marguerite Duras entra em relação com reflexões espaciais e imagens realizadas durante período de pesquisa na França. Tendo como ponto de partida a obra literária e cinematográfica de Duras, especialmente o roteiro do filme “Hiroshima meu amor” e a cidade de Nevers, a realização dos trabalhos visuais surgem no percorrer de seus lugares literários, considerando aspectos locais, elementos de sobreposição entre realidade e ficção e uma ideia de reconstrução do lugar a partir da experiência.  Visualidade e literatura se tornam diferentes formas de vivenciar tanto um texto como um lugar.

        DOWNLOAD em:

        https://doi.org/10.14393/EdA-v2-n1-2021-59536

        Publicado em junho 15, 2021

        Eu precisava de uma cidade do tamanho do amor mesmo.

        Eu a encontrei em Nevers mesmo.

        Marguerite Duras, Hiroshima meu amor.


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